Artur Arede Opinião

COISAS DE PAI

Ser pai é assim uma espécie de “Super-Homem” sempre preocupado com as “andanças” dos filhos, onde param, o que fazem, o que comem, o bem-estar, sempre vigilante!

O crescimento tem aquela mescla de expectativa e crueldade, porque implica uma separação. Os filhos, mesmo quando saem de casa para trabalharem, vivam sós ou com quem queiram, ou viajarem, continuam a ser filhos, vou continuar a chamá-los para virem comer a minha feijoada, a minha lasanha ou qualquer dos pratos que lhes confecciono com carinho, para os ouvir contar o seu dia, nem que seja por telefone, pelo menos em mensagens pelo WhatsApp !
São os pais os primeiros exemplos de força e solidez que os filhos tem. Pais são os primeiros amores da vida das suas filhas e a primeira referência de super-herói para os filhos.
Os pais não mentem, e quando o fazem é para privar o filho de algo que ainda não é o tempo certo de saber. Logo, isso não conta como mentira.
Sempre soube como os vestir, mudar as fraldas, preparar as refeições, ir às consultas médicas, ir às reuniões da escola, até fiz parte de uma Associação de Pais de forma assídua e participante, e nunca necessitei de guarda partilhada, já que sempre a partilhei na medida das possibilidades e da geografia.

Nunca assumi enquanto pai, aquela figura autoritária, muito por achar que não seria pelo autoritarismo que iria transmitir valores essenciais, mas através da dialéctica de valores, exemplos e condutas, que decidissem a vida dos filhos, e jamais os impedi de exporem os seus pontos de vista e as suas vontades.
O pai é aquele que cuida e zela para que as filhas se tornem grandes mulheres, mesmo que em seu coração elas continuem sendo as “filhotas” vestidas de fada da infância. E o mesmo esforço se faz para que os rapazes sejam homens bem sucedidos e exemplares.
Pai acha que será sempre importante dividir com ele as conquistas dos seus filhos, mesmo que pequenas.
Ser pai é ser exemplo, é dedicação, é carinho, é cuidado, é força, é diversão, é educação, é união, é preocupação, é noites de insónias, e acima de qualquer outra coisa, pai é amor.

Acho que uma das características negativas desta nossa época é a crise de autoridade, fruto do laxismo da figura do pai. Dispensa-se o pai e consequentemente todo tipo de autoridade, e isso gera mais que uma ausência, um vácuo: o vazio representa um “novo conteúdo”. A pós-modernidade consagrou a possibilidade de viver sem Deus, sem pai e sem sentido. O indivíduo se basta, o individualismo é a lei, todavia, não foi isso que transmiti.
Parece-me, tenho a percepção, apesar de não ser o meu caso, que a figura actual de pai está menosprezada. E parece-me igualmente, que ninguém quer ser autoridade no sentido pleno e responsável que o termo implica. Todos querem ser jovens, querem ser filhos, pois a juventude é a idade endeusada em nossa época. Porém é preciso levar em conta que quando a imagem paterna é inadequadamente modelada pelos filhos, em especial pelos rapazes, o pai carrega essa deficiência pelo resto da vida: “Anseia por algo que está faltando, da mesma forma que pode ter carência vitamínica, e ansiar por determinado alimento”.

Ser pai é viver nesses momentos. Aqueles em que nos sentimos parte de algo muito maior, como a paz de ver os filhos bebés adormecer-nos no colo pela primeira vez, mas também os outros, de continuidade, da rotina.
Ser pai é ter o prazer de nos encontrarmos nas pequenas coisas que partilhamos com os nossos filhos, olhar para eles e ver que carregam histórias nossas e que nos duplicam no tempo, mas são versões próprias de alguém muito mais valioso do que nós. Isto de educar filhos não é uma democracia, não é um jogo entre iguais. Arrisco a afirmar que os filhos educados de forma muito fofa e democrática transformam-se em adultos com atitudes muito pouco democráticas.
Perceber a nossa responsabilidade no ser humano que serão – que, em potência, estão já a começar a ser – tem tanto de assustador como de especial.

Por estas e por outras é que estarei sempre preocupado com o caminho que seguem, com as ausências forçadas, com as distâncias por percorrer, e com as suas descobertas do mundo, sabendo que o mundo tem perigos que a minha consciência não abarca, e que minha distância não protege.

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