Os 4 nascimentos

Quando nasci pela primeira vez nem sequer havia palavras para medir o tempo. Tinha sol, estrelas e luar, mas não tinha nomes de gente, nem de bichos nem de terras. Só dias e noites, frio e calor, silêncios e trovoadas. Não havia pouso seguro para nenhuma criatura em lugar nenhum: a vida corria sem tino, fugindo da morte e nutrindo-se de cadáveres.

Nasci pela segunda vez quando o mundo ainda era tão pequeno que nem Deus tinha. Ninguém O tinha imaginado nem falado com ninguém sobre a cor da sua pele nem sobre o brilho dos seus olhos, nem sobre a fragrância dos caracóis do seu cabelo. Deus ainda não tinha encontrado berço nem acalanto nas algazarras nem nos arraiais. Nenhuma divindade se interessava pelos louvores de uma espécie viva e irrequieta, mas tão feia, tão minúscula e tão primitiva, tão sem graça e malcheirosa que só de olhá-la metia dó.

Os meus antepassados humanoides – foi quando eu nasci pela terceira vez -, alcançaram o estatuto de humanos quando inventaram os deuses para consolação dos caçadores e das mulheres parideiras; é desde então que a consolação nos alimenta a existência. Consolamo-nos saciando fomes e desejos. Já assim era antes, mas ninguém sabia. O mundo inteiro cabia tão somente numa grande planície por onde corria um rio. Nunca ninguém alcançara lá ao longe as montanhas donde vinham as nuvens, a chuva e as trovoadas. Os primeiros atrevidos que por lá se aventuraram à procura de Deus, nunca mais voltaram. Outros que se atreveram a descer rio abaixo em troncos de árvores também nunca mais foram vistos.

Finalmente, quando nasci pela última vez, os marabutos já apregoavam que os deuses não existiam, e que éramos só nós mais os outros. Todos os vivos, até mesmo os poetas e os cantadores, apregoam agora que eu vou finalmente morrer pela primeira e última vez. Descobrirei enfim a beleza das tatuagens da pele de Deus, quão intenso é o brilho dos seus olhos, mas não voltarei mais para junto de vós, meus irmãos. Tereis de continuar a procurar sem mim onde mora o Grande Arquiteto, para lhe prestares a glória que Ele merece, descobrir qual é a cor da sua pele, o brilho dos seus olhos e a fragrância dos caracóis do seu cabelo.

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António Abreu Freire
António Abreu Freire
António de Abreu Freire nasceu na Murtosa em 1943. Emigrou, estudou nas universidades de Lovaina, de Paris e de Laval, no Québec, Canadá. Professor universitário e investigador no Canadá, Brasil e Portugal, conferencista e navegador, publicou duas dezenas de livros nas áreas das ciências humanas e da divulgação científica.

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