Contam os textos sagrados que David, rei de Israel, estava velho e cansado depois de muito combater e de muito amar; todos os súbditos mantinham por ele a mais profunda veneração. O povo de Deus, finalmente unido num só reino, nunca tivera um líder tão respeitado e confiava na inteligência e na ambição do príncipe herdeiro para garantir a continuidade da grandeza alcançada. O comércio com o Oriente e com o Egipto fazia do príncipe Salomão a pessoa mais rica do reino, orgulhoso dos seus cavalos, dos grandes negócios com as cidades do mar, onde vivia gente sem rei, sem bandeira nem fronteiras, mas que tinha todos os povos do mundo conhecido como clientes das mercadorias estivadas nos porões dos seus navios. O príncipe recebia como presentes as mulheres mais belas e sedutoras: a todas impressionava pela inteligência e a todas seduzia com o seu carinho. Sábio e amoroso, cultivou as virtudes da sabedoria e da justiça e nunca se envolveu em nenhuma guerra: foi assim que os escribas bíblicos construíram o seu perfil, passados mais de 400 anos após a sua morte, quando o tempo era de aflição, no exílio de Babilónia.
Nos últimos anos de vida, o velho rei David vivia numa grande tristeza e solidão e, por mais que se esforçassem os servidores, não conseguiam dar-lhe o conforto que merecia; procuraram então por todo o reino uma jovem virgem, bonita e sedutora, que o aconchegasse. Escolheram uma adolescente, Abisag de Sunam, da tribo de Issacar (o 9º filho de Jacob e de Lia), para suavizar os dias e partilhar a cama do monarca que ainda gozou anos de uma calorosa e merecida felicidade, na companhia da Sunamita. Reinou quarenta anos: sete em Hebron e trinta e três em Jerusalém. Salomão era filho de Betsabéa, por quem David se apaixonou, levando-a a cometer adultério. De uma arrasadora beleza, tornou-se uma das mulheres mais poderosas do seu harém. Salomão reinaria outros tantos anos: casou com a filha do Faraó Siamón (da XXI dinastia) e partilhou a sua cama com outras sessenta rainhas, setecentas princesas, trezentas concubinas e um sem número de donzelas da mais fina companhia – atestam os textos sagrados. Apenas uma tem nome, a amonita Naamá, mãe de Roboão, o primeiro rei de Judá, o reino do Sul. Em sonhos, Salomão falava com Deus. Aconteceu faz muito tempo: talvez a memória dos homens, como a dos escribas de Judá, tenha sofrido, vacilado, ou até exagerado na contagem. Foi há quase três mil anos, mas poderia ter sido ontem, que a história dos amores de David e dos haréns de Salomão continuaria a encantar e a divertir os pregoeiros mais debochados e os peregrinos mais piedosos.
A rainha de Sabá juntou uma caravana carregada de perfumes, de ouro, de marfim e de pedras preciosas e veio até Jerusalém, para satisfazer a curiosidade, abrir o seu coração e partilhar a cama do rei dos hebreus, fascinada pela sua sabedoria, pela beleza do palácio, a abundância e o requinte das iguarias da sua mesa, a qualidade dos servidores, o garbo dos oficiais do exército com seus uniformes, as roupas dos cortesãos, as festas requintadas da corte, e também pelo esplendor do Templo que o rei construía para abrigar a Arca, onde morava o Deus único de Israel. Nunca ninguém tinha oferecido a Salomão tão preciosos tesouros. Como se não bastasse, a rainha ofereceu ainda toda a mercadoria de uma frota de barcos fenícios que arribavam do país de Ophir, no rio das Amazonas, carregados de âmbar, diamantes, macacos e papagaios, mármores raros e madeiras preciosas com que o rei mandou enfeitar e assoalhar o palácio e o Templo, e fabricar liras e harpas para os poetas do reino. Salomão ofereceu-lhe os melhores dos seus cavalos, leões e tigres adestrados, jarras de mel e incensos raros e muitos outros presentes com que a rainha Balkis estivou a caravana antes de regressar ao seu trono, nas terras do Iémen. Ninguém sabe quanto tempo ela viveu nem quantos anos reinou, mas não importa, pois o que interessa é a intensidade e a grandeza dos momentos vividos e a imortalidade das paixões enquanto elas duram. Privilégios das rainhas!
A grandeza e a opulência do reino de Salomão nunca mais foram esquecidas; apagaram-se os episódios irrelevantes que devolveram ao esquecimento os detalhes das paixões passageiras. Não passaram à história os pormenores da partilha da sua imensa fortuna, dos navios da frota de Cádis, dos seus cavalos e carruagens, dos seus haréns. Salvou-se a história do imenso palácio e do Templo que mandou construir em honra de Yahweh, assim como o poder das mulheres que o forçaram a construir altares e a prestar culto a outros deuses em Jerusalém, para lhes agradar. Yahweh era um Deus ciumento e não perdoou tamanha afronta de infidelidade; ao longo da história, a cidade de Jerusalém seria destruída e reconstruída vezes sem conta. E a cidade santa, onde Deus já não mora, continua a brilhar e a seduzir, qual noiva desejada por muitos pretendentes.
Privilégio de reis, um harém de mulheres bonitas! São elas que traçam e mudam o destino da história. Pela beleza de Betsabéa, David infringiu as leis sagradas e foi punido por Yahweh: o primeiro filho de ambos, morreu ao nascer. Foi por amor das mulheres estrangeiras do seu harém que Salomão praticou a idolatria e Deus deixou de falar com ele. O que não faz um rei pelo calor de uma, pelo carinho de muitas mulheres! É fragilidade para qualquer forasteiro plebeu, por mais sábio e piedoso que seja, mas é privilégio de rei que até os deuses respeitam. Teve reis que abdicaram do trono por amor, que viveram paixões desmedidas contrariadas por razões de estado, que enfrentaram guerras medonhas por causa do rapto de uma mulher e que ficaram prisioneiros todas as noites do enredo poético inventado pelo imaginário de uma escrava cantadeira! Só mesmo um rei tem o poder de enxergar o segredo dos cometas, a razão das paixões profundas, o paladar dos desejos proibidos. Tem um rei escondido por debaixo da pele de cada peregrino.
Nem sempre é rei o consorte de uma rainha; mas aquela mulher que por paixão partilhar a cama de um rei, será sempre uma rainha. Dentro de cada mulher tem uma rainha escondida, cochilando…e na pele de cada plebeu errante tem arrepios e gotas de suor quando ele sonha com um sonho de mulher. É assim que está escrito, Maktub: foi assim que aconteceu com David e Salomão, cujas histórias se prolongam por cinco livros da Bíblia hebraica! Para nosso deslumbramento e para glória e divertimento do Criador!





