Cheguei à Roça da Mãe Preta ao pôr do sol; encontrei um arraial de gente dançando carimbó, tocando tambor, rezando e chorando. Logo imaginei que Dona Neide nos tinha deixado. Ainda moça, já toda a gente a venerava no terreiro como a Linda Jurema. Mulher da roça, sobreviveu durante 97 anos fazendo de tudo com uma coragem e uma sabedoria de gigante, do alto dos seus escassos sete palmos de tamanho. Mulher lavradeira, cultivava todas as plantas que curavam mais aquelas que cozinhava, era a melhor cozinheira de toda a ilha: deputados e empresários, militares, doutores e traficantes, vinham de longe saborear o seu “bacalhau da Amazônia”. Domava jaguatirica e anta, carcará e urubu. Um bando de araras azuis guardava a roça, do topo dos coqueiros. Grande lavadeira, incansável costureira, mulher rendeira, mas antes de tudo boa parideira: foi mãe de dezassete filhos e filhas, de muitos homens, que ela criou sozinha. Um rosário de netos, bisnetos e por aí vai, de todas as cores. E chegava ainda mais gente vinda da cidade onde a notícia se espalhara pela tarde: morreu a Preta Jurema.
Chegou toda vestida de luz à entrada do paraíso: duas enormes portas de cristal e uma fila sem fim de criaturas aguardando vez em silêncio. O porteiro parecia distraído, mas Jurema alertou:
– Oi, seu branco! Tou chegando!
– Chegou, sua preta linda! O Pai está te esperando desde o princípio do mundo.
– Então dá licença?!
São Pedro enfiou quatro dedos na boca e soltou um assobio medonho que ecoou por todo o paraíso. Logo apareceu uma negrada de anjos, todos os de asa negra que rodaram as porteiras do céu. Uma luz maravilhosa inundou os umbrais e Dona Neide enxergou lá em cima ao longe, no seu trono de diamante, a imensa figura de Deus.
– Vai, preta, vai! A Baleia e o Caramelo estão cansados de te esperar, mortos de saudade…
– Então com licença… com licença!
A Preta Jurema avançou pelas porteiras de cristal escancaradas. Deus Pai se levantou do seu trono e desceu até junto dela, cada vez menos brilhante e mais pequenino, até ficar do tamanho de uma criança. E todo o céu escutou:
– Sua bênção, senhora Mãe.
À voz de Deus, a cadela e o jegue acordaram e foi um latir e um zurrar de felicidade como nunca se ouvira: silenciaram-se todos os violinos, todos os coros, as flautas e todos os tambores celestes. Agora e para sempre, mesmo por debaixo da mão direita de Deus.





