1.A Câmara Municipal – com os votos contra dos vereadores do PS – aprovou ontem uma Resolução para demolir a casa da antiga CERCIAV.
Depois da Providência cautelar que interpus, o Sr. Eng. Ribau Esteves decidiu proclamar o interesse público, para assim justificar um crime de lesa património e fugir à decisão que o Tribunal pudesse vir a tomar.
Mas não há interesse público algum. O que há é uma farsa argumentativa. O que há é a obstinação em praticar mais um crime doloso contra o Património aveirense.
2.São basicamente três os argumentos, mas são todos pífios, embora enroupados em pareceres técnicos e grandiloquência sem substrato.
Em primeiro lugar, a “casa velha”, teria que ser demolida por causa do seu estado de degradação. É, porém, falso. Se lerem a Resolução, em lado nenhum se escreve que a moradia seja irrecuperável ou que ameace ruir. Apenas que tem algumas infiltrações, algumas humidades e algumas madeiras com caruncho, – talvez a exigir tratamento ou substituição -, enfim, quase nada, para uma casa que está sem nenhuma manutenção há décadas. A casa está muito melhor do que eu pensava !
3.Em segundo lugar, a “casa velha” não seria da autoria de Raul Lino, nem teria interesse patrimonial por não estar classificada. Mas é, igualmente, um argumento falacioso: nunca ninguém afirmou que a casa era da autoria de Raúl Lino, apenas que evocava a sua escola; e o facto de não estar classificada não é o único critério determinante da valia arquitectónica e patrimonial. Ali, o relevante é a casa em si e a memória do lugar. Quando não se quer preservar, não se classifica…
4.Em terceiro lugar, a casa teria que ser demolida por causa do “risco” de se perder o financiamento protocolado. Ora, um “risco” é um “risco”, não é uma inevitabilidade, e mesmo que se perdesse esse enquadramento financeiro – o que está por demonstrar – , outros poderiam ser encontrados.
5.Em quarto lugar, o Sr. Eng. Ribau Esteves, com o ar doutoral de um catedrático em direito e a ligeireza de quem chumbaria no primeiro ano, disserta sobre direitos de autor, para justificar o ajuste directo de mais de 300 mil euros (!!!) aos netos de Carlos Loureiro.
Contudo, como é evidente, se o Conservatório existente apenas fosse reparado e a expansão para a dança constituísse um novo bloco autónomo, aproveitando a velha casa e os terrenos circundantes, nenhum direito de autor estaria em causa.
6. Em quinto lugar, o Sr. Eng. Ribau Esteves proclama, com a sapiência de quem nunca entrou numa sala de ensaio de instrumentos, que a “casa velha” não serve para as aulas de música, por ter compartimentos pequenos…Saberá ele que algumas salas de ensaio actuais são mais pequenas do que os compartimentos da “casa velha“?
Poderá imaginar – sem “burnout” – que os serviços administrativos ali possam funcionar? Enfim, banha da cobra em notas falsete.
7.Em suma: a “casa velha” pode ser preservada, o financiamento não está necessariamente comprometido e outro pode ser encontrado. Não há qualquer interesse público que justifique um atentado patrimonial deste calibre. Quando não há vontade, tudo se distorce e acomoda-se a “palha à moda do burro” . Que cada um coma a que quiser.
8. Está a dois meses de se ir embora e nada, mesmo nada, fundamenta este terrorismo patrimonial e falta de respeito pelos aveirenses e pelo tribunal. Não há urgência absolutamente nenhuma.
9. O candidato da Aliança declarou-se favorável ao projecto que implica a demolição. Não teve coragem para divergir de quem o apunhalou. Ou não quis. Uma ou outra razão são más: é objectivamente a favor do camartelo sobre o património.
Ele e quem votou deviam tirar todos uma fotografia juntos, para afixar nas novas salas de dança: inspirarão piruetas cívicas e saltos à retaguarda na preservação da nossa identidade.
COMUNICADO RETIRADO DO PERFIL DE ALBERTI SOUTO






